Atravessar o amor
Toda mãe sente, mas a rota nunca é a mesma
Suspiro de leve antes de puxar para dentro o ar úmido da mata que nos cerca. Sinto as palavras da Mari fazendo eco no lugar onde, em mim, também mora uma saudade dura de ser nomeada.
Por aqui também somos três. Mas a verdade é que, até ouvi-la, não tinha refletido muito sobre a falta que sinto de algo diferente do que estou vivendo. Ainda estou em lua de mel — confesso, em silêncio.
Encantada por essa maratona diária que vivemos; encantada ao assistir o companheiro de uma década desabrochar enquanto pai de menina — assim, na minha frente —, ganhar traços de doçura e desenvolver a paciência que tanto lhe faltava.
Não tenho saudade da casa só para nós, da cama só para nós, do dia sem ser ao redor da Vicky. Há tempos saí do puerpério, mas sigo recolhendo galhos, paina, musgos e folhas secas para fazer e refazer nosso ninho — diariamente.
Cansada, sim. Mas completamente apaixonada pelo sonho não sonhado que virou nossa realidade.
No entanto, há uma outra saudade sendo sentida. E, ao ouvir a Mari, me percebo engasgada.
Levo a xícara de chá à boca e sinto meus ombros relaxarem quando vejo a Gabi repousar sua xícara no chão úmido e começar a falar das abas abertas na mente materna dela. Fecho os olhos para ouvi-la e, ao lembrar que não sou a única mãe engasgada, solto o ar.
Atravessar o amor
por Gabi Albuquerque
— Eu me lembro de estar sentada na bola de pilates, Malu no colo para uma soneca. Apoiei o celular no sofá e coloquei algum podcast para nós duas. Antes de finalmente se entregar ao sono, ela chorava e eu precisava “rebobinar” o episódio mil vezes. Meus olhos viam uma sala bagunçada. Nada tinha lugar, nem eu. Era um incômodo que eu não sabia adjetivar. Só repetia o quanto estava cansada e sozinha. Meu marido tinha acabado de voltar de uma boa licença paternidade e eu pensava em como daria conta da rotina de um bebê. Nem mandava mensagens para amigas; o que iria escrever? Rejeitava o lugar-comum das frases feitas sobre a mãe e faltava linguagem para criar outras.
— A gente volta a ser um bebê, né? Perde a capacidade de saber de si, de se olhar no espelho, de falar, de sentir.
— Gostei da analogia do bebê. Já comparei com aprender uma nova língua. Mas, quando se está aprendendo um idioma, ainda sabemos nosso desejo; só precisa traduzir. No maternar é outra coisa. Está nascendo tudo ao mesmo tempo. Não é só a língua, é o país inteiro.
— Uma aventura, um desbravamento, um descobrimento?
— Tudo isso, tudo mesmo! E ainda vivenciamos sozinhas. Com parceiros (as) ao lado, sim. Mas, sendo assumidores dos seus papéis, eles também irão entrar em suas próprias jornadas e se perder nos próprios passos. Ainda que haja uma mãe da mãe presente, é uma coisa só sua.
— Mas, é menos difícil traduzir para quem já viveu.
— Acho que cada uma vive essa travessia de uma maneira muito própria, mas tem sim alguns cruzamentos facilitadores. Quem já sentiu, vai alcançar melhor.
— Nem sempre se sente?
— Passei por muitos momentos de “sufocamento” no início. Em um deles, o cara da empresa de gás veio fazer uma vistoria na casa e demorou mais que o previsto. Minha filha queria mamar, ele não ia embora e eu não queria pôr o peito para fora com um desconhecido aqui. Quando ele terminou, ela não conseguia sugar o leite porque a mama estava cheia e dura. Liguei para uma amiga e pedi socorro. Nunca tínhamos nos visto, a conheci em um grupo de mães no Whatsapp. Ela veio com o filho e uma bomba para esvaziar meu peito. Respirei aliviada, estávamos na mesma encruzilhada, no mesmo modo de sentir o maternar.
— A amiga mãe.
— Toda mãe sente o atravessamento, mas a rota não é a mesma para todas. A amiga mesmo cruza as pontes próxima a você. De outra forma, se torna comparação e culpa.
— Tem quem não entenda a intensidade da rotina do bebê mesmo tendo filhos.
— Me parece que as mães de antes tinham mais rede de apoio, será isso? Às vezes só colocava para dormir uma vez por dia.
— A maternidade está mais pesada?
— Agora, nas sonecas, vou para o quarto. Sento em frente às janelas de outro prédio. Outro dia, uma cena surgiu. Uma mulher sentada numa cadeira gamer em frente a um computador, certamente trabalhando. Malu remexe tentando fugir do sono e eu a contenho olhando a mulher lá na vida dela.
— Antes as mães também olhavam as vidas alheias.
— Tem uma aura de inveja, como se o outro estivesse com uma vida mais interessante.
— Apesar da maternidade em si ser uma aventura como falávamos.
— É uma travessia para dentro.
— Seria isso o tal amor de mãe? Um atravessamento interno que ultrapassa nossas bordas?
— Tem uma música assim: “Quem sabe isso quer dizer amor? /Estrada de fazer o sonho acontecer”,1. Sempre que me pergunto o que é o amor, lembro disso.
— É estranho pensar o amor. Talvez por isso a dificuldade da linguagem.
— Eu escolhi manter a amamentação da minha filha porque é importante para ela. Mas, o sensorial me incomoda. Permanecer no meu incômodo é uma forma de amar. Aí, esses dias pensando no processo do desmame, fiquei abalada porque coloquei o amor como ato único.
— E não é?
— Não. É contínuo; como a respiração. Curta, ofegante, serena, leve, fluída, intensa, lenta, apressada. Nunca interrompida.
— É estar viva.
— É.
Aviso aos leitores: este texto não é uma obra de ficção, o diálogo foi uma forma de expressar todos os questionamentos levantados nas abas abertas na minha mente materna. O formato também traz à tona justamente a Comadreria, uma roda de amigas conversando. Segui a intuição da palavra.
A comadre que te escreve hoje
Sou Gabi Albuquerque, mãe de uma menina perilampa carioca de nove meses, casada há oito anos com o pai dela, o amor da minha vida. Recifense, morei em sp e hoje moro no Rio; meio forasteira. Jornalista há mais de uma década e escritora há um incontável tempo. Criadora da newsletter Tempo para você, um espaço para degustação do cotidiano e seus contrastes através da literatura, dos sabores, do vestir, do caminhar… e agora do maternar. Amo cozinhar e comer, tomar banho de mar, perambular, conversar, tomar vinho e café, ouvir a risada da minha filha e pensar, pensar muito.
Acontecendo na Comadreria
Energizadas pela força do último eclipse-portal, nos reunimos em uma clareira, na floresta, para falar de nossas vulnerabilidades, inaugurando a segunda coletânea da Comadreria. Serão onze semanas de trocas, acolhimento e transmutação, promovidas pelos textos de nossas convidadas que emprestaram a sua poesia para a nossa roda. Para ler o primeiro texto, clique aqui.
A terceira coletânea já está sendo gestada em nós. Desta vez, a Comadreria abrirá um edital, na esperança de descobrir e impulsionar novas vozes. Te contamos, logo.
Com amor,
Comadreria
Quem sabe isso quer dizer amor, Lô Borges e Milton Nascimento











Meninas, que prazer estar nessa roda!! Obrigada pelo convite e por receber essa escrita em momento pra lá de confuso. Um beijo ♥️
Ah, Gabi, que texto bonito! Sabe que tbm ando pensando na maternidade como uma grande travessia. As paisagens vão mudando e a gente sempre avante.
Lindo, lindo!