Saudade de ser dois
na nostalgia da beleza do ordinário que, tão cedo, não poderemos acessar, o coração quase falha.
Só, caminho pela trilha na floresta, os braços carregados de lenha e nó de pinho. Meus pensamentos são interrompidos tão somente pelo som, ora crocante, ora macio, das folhas, galhos e terra sob os meus pés. Ao longe, já avisto o círculo que vínhamos preparando há uma semana. Ele se ilumina de prateado pela lua alta e cheia, que essa noite nos recebe, alinhada conosco e com o sol.
Sou a primeira a chegar. Caminho até o centro da clareira e me ajoelho. Respiro fundo, faço uma prece aos elementais, santos, anjos, deusas e deuses que me acompanham. Para montar uma fogueira alta, posiciono cada tronco, com a minúcia de quem precisa de algo manual para acalmar a mente ansiosa. Funciona. Logo, meu rosto sério e compenetrado se desmancha em sorriso ao ouvir o burburinho das outras mulheres. A chama começa a queimar.
Dani prepara o chá de camomila e lavanda. V., abraça uma a uma e nos convida a sentar, em roda. Somos, todas, olhares e acolhimento, quando o fogo, por mim aceso, estala e começa a entoar a sua canção. Por ele, me sinto autorizada. O acompanho, com o meu grito.
Saudade de ser dois
Voltava do trabalho a pé, quando decidi desviar pelo Jardim Botânico. Entro nele pelo estacionamento pequeno que tantas vezes usei, ou vi usar; e sigo, passos apressados, pelo caminho de pedrinhas, de onde já se avista a famosa estufa. Desvio das fotos de dois ou três turistas, sabiamente posicionados sob o portal. Mas, faço a vez, certamente, de papagaio de pirata de duas senhoras que, já impacientes, soltam o abraço, sob o protesto do fotógrafo. Não me demoro. Viro à esquerda, fugindo do centro do cartão postal, disputado pelos visitantes da cidade, e opto pela pista de corrida. Adentro, então, o território dos atletas amadores que, como eu, invejam secretamente a disponibilidade das três amigas, sentadas à fina sombra das araucárias novinhas, para piquenique e conversa no entardecer de uma segunda-feira. Outra vez, não me demoro e, bolsa de um lado, marmiteira do outro, acelero os meus passos na esperança de (1) fazer valer a caminhada como atividade física, não tendo acordado cedo naquela manhã fria, tipicamente curitibana, para a costumeira tortura matinal; e (2) chegar em casa antes de marido e filho, para adiantar o jantar e, sejamos honestas, assistir pedacinho de um capítulo da última temporada de Bridgerton.
Visualizo a subida lateral do bosque, que tantas vezes me assombrou em treinos, quando avisto um casal indo na direção de onde eu vinha — atalho que eu (nós) também fazíamos, para poupar pernas, pulmão e coração da desnecessária altimetria seguida. Eles trotam, mais do que correm, propriamente. Assumem um ritmo similar, se acompanham mesmo sem tocar um ao outro. A não ser com os olhos. Com os olhos, se tocam. Conversam. Sorriem. Se tocam, conversam e sorriem, com os olhos, a boca, o rosto todo. Sem perceber, desacelero e os acompanho, também com os olhos. Ela está de cabelo preso em um rabo baixo, feito de forma rápida e displicente. A roupa também não demonstra a cada vez mais comum, frequente e exaustiva preocupação com desempenho. Legging normal. Camiseta vermelha. Talvez um top, por baixo. Ele, tão semelhante. Camiseta de algodão azul-marinho. Bermuda bege de poliéster. Nem me apego aos tênis, presa que estou na cena completa. E, na dor tremenda que começo a sentir bem no meio da caixa torácica, algo acima do estômago, que rapidamente sobe, em onda, até travar a garganta, em um único nó, que insiste em conter o grito.
Como uma viajante do tempo, volto seis, sete anos. A florada dos canteiros centrais está mais simples. As araucárias do morro do lado direito da estufa, ainda bebês, estão cercadas por piquete de madeira. Escurece uns quarenta minutos, talvez toda uma hora, em relação ao que estou, no momento atual. E é no tal estacionamento pequeno, vindo pelo caminho de pedrinhas, que o encontro para o treino. Ele sugere um percurso diferente, restando nem um único fio de cabelo virginiano neste ser nascido, erroneamente, no início de setembro. Eu, leonina, mas com virgem de ascendente — e certa predominância — insisto pelo caminho de sempre: descer o lago, contornar por perto do museu, subir por dentro, passar pelo exato ponto em que me encontro e seguir, comigo, versão mãe, 2026, pela lateral do bosque, para então descer, subir novamente e circular pelo jardim principal. E tudo de novo, por três vezes. Não aquecemos. É 2019, pré-pandemia. Nem tanto se fala em corrida, em atividade física — ou não, em nosso meio. Mas ligamos os relógios e sincronizamos os passos, assumindo, ele, o meu ritmo, comentando fato ou outro sobre o dia.
Essa viagem acontece em poucos segundos. Logo, já estou, novamente, em meu caminho, sem ver-nos. Sem vê-los. Comigo, porém, a tal dor; que poderia ser, se não curada, amenizada, não me carecesse o atrevimento de gritar, ainda que só para mim: meu Deus, que saudade de ser dois!
Há que se fale na falta que faz a intimidade: transar no sofá, de forma bastante audível, às sete horas da noite de uma terça-feira, por puro desejo. Ou, do buraco provocado pela ausência de vida social partilhada: o cinema na segunda, para maratonar os filmes do Oscar. O bar, na quinta, para desopilar do dia estressante de trabalho. O almoço tardio de sábado, na ventura de um último restaurante aberto, tendo o sono da manhã se estendido, tal qual o desjejum. Para não dizer dos planos de férias: os arranjos de datas dos dias somados a feriados; os sonhados destinos a nós predestinados pela sorte das passagens promocionais combinadas com a despreocupação do hotel barato.
Sinto falta. Disso. Disso. Nossa! Disso.
Mas, é na nostalgia da beleza do ordinário, daquilo que, desconfio, jamais, ou não tão cedo, poderemos acessar novamente, que o coração quase falha. Manhãs preguiçosas, na cama, quando a única preocupação que nos assola é quem descerá para preparar o café e trazer na bandeja. As conversas aleatórias em meio aos vapores do chuveiro quente e “me alcança o sabonete?”, “toma o shampoo”. As noites de drinks, dardos e política, em casa, isolados na mais longa quarentena. O silêncio, no sofá, cada qual imerso em sua leitura. Os baldes de pipoca para acompanhar capítulos sequenciais de uma série, que não precisa, mas pode, ser vista de madrugada. Correr no parque, no final da tarde, sem hora exata para voltar para casa. Pequenos fragmentos da parceria, tão longamente cultivada e desenvolvida, que se esvai, por entre dedos, nos cuidados (descuidos?) da rotina de um terceiro, pequeno e dependente elemento.
Perdida nessa saudade tão dura de ser nomeada, me vejo no portão de casa. Em silêncio, preparo o jantar em modo automático. Nem ouso ligar o Netflix, incapaz de uma fofoca de Lady Whistledown me tirar da melancolia e torpor. Até que ouço o ruído do carro. Da ponta dos pés, espio a janela da cozinha e os avisto adentrar a garagem. Logo, passadas pesadas na escada, a típica batida na porta, a voz do bebê, em leve desafino, dando lugar à do menino: “mamãe, pode abrir a porta, por favor?”. Abro e, num único movimento, ele pula no meu colo e me abraça forte; acompanhado do marido, que vem logo atrás, meio desequilibrado; me beija a boca, enquanto diz “oi!”. Ainda em meu colo, Pedro solta um dos braços do meu pescoço para abarcar também o do pai; faces coladas, nós três, ele sorri e diz “minha família!”. E, embora não sane determinadas faltas, a onda de amor e ocitocina rapidamente faz cicatrizar certas feridas. Somos três, agora.
A comadre que te escreve hoje

Mariana P. Bragança, Mari, é mãe do Pedro, de três anos, e dona da Tasca dos Bragança, uma casa com nome próprio, refúgio de devaneios e obsessões, que abraçam da cozinha às estantes e transbordam nas paredes, entre fotos e memorabilia. Uma apaixonada pelas palavras, que por uma curva inusitada do destino (nunca soube diferenciar direita e esquerda), foi parar na engenharia. Desde 2021, assina a newsletter tasqueando, no Substack, onde chama à mesa, prepara um café, serve algo que se coma, abre um vinho — o preâmbulo para as partilhas de sua vivência como mulher e mãe. Em 2025, com uma honra tremenda, integrou-se ao núcleo da Comadreria, fazendo valer a tão sonhada “vila de mulheres-mães”.
Acontecendo na Comadreria
Energizadas pela força desse eclipse-portal, nos reunimos em uma clareira, na floresta, para falar de nossas vulnerabilidades, inaugurando a segunda coletânea da Comadreria. Serão onze semanas de trocas, acolhimento e transmutação, promovidas pelos textos de nossas convidadas que, tal qual na primeira série, emprestaram a sua poesia para a nossa roda.
A terceira coletânea já está sendo gestada em nós. Desta vez, a Comadreria abrirá um edital, na esperança de descobrir e impulsionar novas vozes. Te contamos, logo.
Com amor,
Comadreria.







“E, embora não sane determinadas faltas, a onda de amor e ocitocina rapidamente faz cicatrizar certas feridas.” — obrigada por esse grito, amiga querida! Me arrepiei do início ao fim e, apesar da imensa vontade de também, muitas vezes, querer voltar a ser dois, me deixo abraçar diariamente por essa onda de amor que emana das crias que colocamos no mundo. A maternidade é, como sempre, uma dualidade sem fim.
Apaixonada por esse grito desde a primeira leitura. Ja foram várias, sigo encantando-me pela sua escrita, comadre.