Quando a chaleira apita
é hora de se escutar e servir o desejo
Agora, aqui no meu quintal, a roupa no varal seca ao som do sol, um gato preto imaginário descansa na sombra da goiabeira que um dia eu vou plantar para que meus netos saibam o que é subir em árvore e, lá do alto, pilotar um navio. Minha filha brinca de andar para lá e para cá descobrindo, por conta própria, essa coisa chamada liberdade — o poder de poder caminhar seus próprios passos e tropeçar seus próprios erros. O feijão apita na panela de pressão e em breve, muito em breve, precisarei tirar as pernas do ar para terminar o almoço que não se fará sozinho.
Mas por hora, pelos próximos minutos, fico aqui, vestida de calma com meu chá de capim cidreira em mãos escutando não os meus pensamentos, mas os da Yna — que é minha vizinha nessa nossa vila de comadres. Te convido a preparar algo gostoso para beber, sentar aí na sua varanda e abrir seu portão, dando passagem para a história de hoje (a primeira de uma série de oito) que fala do desejo por viver esse caleidoscópio de sentimentos chamado maternidade.
Desfrute desse encontro com a querida Yna.
Com um afeto radical,
Verbena Cartaxo
Quando a chaleira apita, é hora de se escutar e servir o desejo
por Yna Marson
uma imagem sempre me vem à mente. eu aos 12 ou 13 anos sentada no vaso sanitário, fazendo xixi e simulando que dois bebês estavam ali comigo. um menino e uma menina. gêmeos. meus filhos.
eu desejo ser mãe antes mesmo de saber o que era sexo. antes mesmo da minha primeira menstruação. uma vez me disseram que era o instinto de bicho de procriar a espécie. eu ri pensando que se nossa complexa vida fosse tão facilmente explicada e vivida a partir de nossos instintos, talvez a psicanálise que me “salva” diariamente não precisaria existir.
fato é que bicho gente tem escolha. e tem desejo, e tem medo e mais um tanto de coisa nesse caldeirão chamado Existência. e de repente eu me vi com 33 anos sentindo o caldeirão desejante que me habita borbulhar e apitar tal qual chaleira. era chegada a hora. não dava mais para adiar ou fugir. não dava mais para simular bebês imaginários no banheiro. meu corpo me disse em alto e bom som: estamos prontas!
mas como toda boa história, havia um pequeno conflito. meu companheiro, meu amor, aquele que eu escolhi para viver essa aventura não sabia ao certo se queria vivê-la. para falar a verdade, nos nossos primeiros anos ele era categórico em dizer que “não”. ao mesmo tempo que vez ou outra enquanto me via brincar com seus sobrinhos deixava escapar que talvez fosse uma boa ideia…
fomos cozinhando esse caldo sem mexê-lo por um bom tempo. até não dar mais.
em meio a um choro infantil que nos faz soluçar e falar as palavras aos solavancos, disse para ele que estava completamente apavorada porque era chegada a hora de decidirmos nosso caminho. eu não queria abrir mão do meu desejo e não sabia o quanto ele estava disposto a abrir mão do seu não-desejo. terminamos essa primeira conversa bem tristes e com ele dizendo: “não tem como os dois vencerem”.
no dia seguinte, já menos emotivos, falamos de forma leve e clara sobre todos os nossos medos, desejos, vontades, dúvidas e principalmente sobre o que era inegociável pra cada um. ele me disse de forma bastante vulnerável qual parte de si temia perder e juntos encontramos uma maneira de deixá-la com a cadeira cativa ali. eu disse de forma bastante vulnerável o quanto esse desejo era parte de mim e de como eu temia não vivê-lo. e encontramos juntos uma maneira dele poder existir.
nesse mesmo dia, ouvi: “eu fiquei pensando sobre essa minha resistência e depois me toquei: ‘essa mulher escolheu ter um filho comigo. ela me escolheu pra isso’. e entendi que, na verdade, pra mim é uma honra que isso aconteça”.
foi a coisa mais bonita que alguém já me disse. e naquele dia, o desejo ganhou espaço e forma.
e então me permiti me preparar para vivê-lo. dando voz a ele em meio a conversas e conteúdos criados; ouvindo outras mães; ouvindo principalmente a minha mãe; pensando em possíveis nomes; entendendo se continuaremos morando longe da família ou se precisaremos voltar; pesquisando plano de saúde porque descobri que tem um prazo pra contratar antes de engravidar; diminuindo o café; comendo mais frutas; fazendo algumas contas… mas tentando não me precipitar ou me apavorar com o que ainda nem conheço. talvez a tarefa mais difícil seja essa: estar no presente enquanto planejo o futuro.
tô cheia de vários medos. e sei que outros tantos se apresentarão.
mas se posso dar um conselho pra quem está onde estou, digo para não fingir que não ouviu o apito da chaleira. enjaular o desejo é como definhar de dentro pra fora. é perder a direção de si. não tem pra onde correr, ele é uma parte de você. escuta o que ele diz, deixa ele existir. porque só assim você também existirá por completo. não é a maternidade que completa uma mulher, é a escuta do desejo que faz isso. e se esse desejo é o de ser mãe, então claramente a sensação de completude virá!
se as coisas acontecerem como eu planejo, ano que vem apareço pra te contar como é realizar. mas raramente as coisas acontecem como planejamos, né? o que posso garantir é que estou aberta. pronta? nunca! mas preparada. cheia de amor, curiosidade, empolgação… desejante!
A comadre que te escreve hoje
olá, prazer, sou a Yna.
uma mulher de mente caótica e coração calmo que está desejante por maternar — e vivendo a turbulência dessa escolha. um poço de incoerência, café e gargalhadas. moro perto do oceano, dirijo um fusquinha branco e faço arte pra dar conta da vida. além da Desejante no Substack, você também me encontra no youtube e no spotify com o podcast e videocast Vida Desejante e no instagram.
Acontecendo na Comadreria
A sala do Zoom já está reservada para a primeira roda de conversa entre comadres que acontecerá no dia 31 de Agosto às 10h horário de Brasília. Nos encontraremos do jeito que for, com caos e cria(s) na barra da saia, cabelos escovados ou amarrados naquele coque alto velho de guerra. O que importa é estarmos juntas! O link para esse primeiro encontro (que é gratuito) será compartilhado na véspera, por e-mail.
Sabia que toda sexta-feira nós estendemos o Varal da Comadreria lá no nosso chat? O varal é um espaço para pendurar e divulgar sua escrita, encontrar outras comadres que escrevem e tecer belas conexões. Para acessá-lo basta instalar o aplicativo do Substack e procurar por nós.
E por falar em tecer conexões, o Atlas das Mães que Escrevem no Substack será atualizado em meados de Agosto. Se você ainda não faz parte dessa cartografia viva da escrita materna, te convido a preencher esse formulário e colocar seu nome e sua escrita no mapa.








Oi Yna, que alegria ter você estreando essa nossa série, ainda mais com um relato tão íntimo e tão essencial, afinal muitas de nós já estiveram nesse lugar ou ainda estão.
Achei extremamente corajoso de vocês dois ao se abrirem dessa forma para essa nova escolha de ser mãe e pai! Que bonito como esse processo está sendo costurado. Desejo que vocês continuem curtindo cada micro-fase desse costurar:) ❤️
Ahhhhh, que tocante. Me lembro bem, quando me dei conta do desejo de maternar. Estava aí perto de ti, na Guarda. Caminhava sozinha na praia e o mar falava comigo. Sentei na cadeira, de volta, e partilhei com o marido, que me olhou estupefato: o que havia nessa caminhada?
Que vocês se encontrem nesse período de ajuste de desejos e expectativas e sejam felizes demais com os destinos que a vida impuser.
um beijo carinhoso <3