O trabalho suficientemente bom
Dá para ganhar menos e ainda assim, ganhar muito mais
Sinto o silêncio zunir fundo no ouvido.
Nesta noite de lua cheia, sequer os grilos ousam competir com as muitas abas abertas da maternidade da Gabi.
— É estar viva? É. — suas palavras ainda ecoam, quando a observo se curvar e, com a xícara de chá em mãos, dar um gole farto.
Lembro da Daniela recém-parida que, apesar do que todos falavam, nunca conseguiu se sentar com a cria no peito, um chá na mão e um livro na outra. Ao amamentar, a dor era tamanha que qualquer descuido se transformava em mais um machucado para curar. Sentia-me como um elefante na sala: fora de lugar, desengonçada, despreparada para lidar com aquele alguém que de mim dependia. Diferente do que dizem por aí, naqueles primeiros meses, eu hesitava um pouco ao me autoentitular “mãe”. Aquela aventura toda ultrapassava as minhas bordas internas — era preciso saber navegar nas águas da incerteza e ter, além de paciência, a capacidade de me autoacolher — tudo aquilo que nunca tive. Agora, mais de quatro anos depois daquele primeiro parto, mesmo com meu país ainda em formação, me encontro mãe de corpo e alma. Ainda que, a cada salto de desenvolvimento dos dois pequenos seres que gritam por mamãe, mamãe, veja uma nova terra a ser conquistada surgir no horizonte.
Respiro.
A brisa fresca da noite, me traz de volta à clareira onde estamos. Olho para rostos compenetrados, cada uma em seu universo, provavelmente refletindo sobre o amor que as atravessam diariamente. Por entre a penumbra do fogo, vejo Yna e Paola, sentadas lado a lado, se entreolhando. Imagino que a fala da Gabi também tenha desencadeado uma enxurrada de reflexões nelas.
O silêncio no ar é cortado por um estalo de fogo que vem nos lembrar: estamos aqui, estamos vivas.
As duas se ajeitam em um dos troncos caídos e, em uma rápida troca de olhares, se comunicam. Paola endireita as costas e, segurando a xícara com as duas mãos, se põe a falar.
O trabalho suficientemente bom
por Paola Z. Behs
Alguns meses atrás, participei de um podcast em que a entrevistadora se mostrou impressionada ao constatar o tanto que consegui elaborar sobre a maternidade mesmo antes de ser, oficialmente, mãe. Na verdade, não antes de ser mãe, mas antes de ter um bebê no colo. Passar por duas perdas antes de ter uma terceira gestação, graças a Deus, bem-sucedida, teve a sua parcela de ressignificação e um espaço de tempo para muita elaboração sobre o que não cabia mais, pra poder caber um bebê. E o principal que não cabia era meu trabalho no mundo corporativo.
Eu não conseguia enxergar como seguir sendo uma executiva de alto desempenho (e, quase consequentemente, de alto estresse) e conseguir ser uma mãe de desempenho tão bom quanto. Não que a mãe precise performar. Agora vejo que não precisa, inclusive. Mas, ao passar por dois abortos espontâneos, percebi que um bebê e um trabalho de altíssima demanda, como os que eu tinha tido nos 15 anos anteriores, não poderiam coexistir. Eles me deixariam fragmentada. E eu queria estar inteira para poder ser demandada não pelo trabalho, mas pelo meu bebê. Ainda que isso significasse ganhar bem menos. E com isso, ter que aprender a viver com menos.
Dá pra ter tudo, mas não tudo ao mesmo tempo, eu já tinha, de alguma forma, aprendido. Nos lutos e nas lutas. Assim, eu gestava minha bebê e também uma nova Paola profissional.
Outubro de 2024.
Eu me tornava uma mãe com bebê no colo. O que eu mais queria no mundo.
51cm e 3,680kg. Grande, saudável. Quase 4 meses de foco 100%. Pro bebê crescer aqui fora. E pra todo o resto ficar parado.
Na verdade, nem tudo parado. Algumas coisas andavam para trás. As reservas financeiras, por exemplo, eram consumidas. Privilégio tê-las, claro. Mas vê-las diminuindo, mês a mês, começou a assustar. E se o dinheiro acabasse antes de um me (re)encontrar profissionalmente? Vendo de fora, a tão sonhada bebê arco-íris havia chegado cheia de saúde, em uma família estruturada. Mas os desafios financeiros que acompanham a chegada de uma criança, é uma realidade ainda pouco falada. Falar de dinheiro no Brasil ainda é um tabu. Falar de dinheiro entre mulheres, mais ainda.
Não ter uma licença maternidade, devido a minha escolha por começar uma carreira autônoma ao mesmo tempo que virava mãe, foi arriscado e difícil. Eu, que vinha há anos em um padrão bem confortável que incluía um bom apartamento, comprinhas online sem exagero mas também sem muito critério, muita comida de delivery, duas viagens por ano, basicamente podendo quase tudo que eu queria, sofri para me adaptar. Sofri podendo muito menos. Por vários motivos. Mas o financeiro gritava. A falta da segurança de um salário CLT e de todos seus benefícios exigiu uma adaptação muito grande. Eu não me conformava por ter trabalhado tanto, por tantos anos, e quando chegou o momento de ter o meu bebê, eu não tinha mais o conforto de antes. Eu precisava encontrar alguma forma de manter a prioridade no meu trabalho principal, o de mãe, e de conseguir também ter espaço para investir no trabalho secundário, o remunerado, que se fazia necessário.
Em meio a infinitas mamadas, brigas para sonecas, leituras de livrinhos, passeios de carrinho, comprinhas online (bem parceladinhas), muitos chameguinhos, e um amor maior que tudo, tive que encontrar espaço para atuar como consultora e mentora. Espaços também bem parceladinhos, pois horas contínuas de trabalho são um privilégio que nós, mães autônomas, definitivamente não temos. E fazendo do meu jeito, sem investir em fórmulas de marketing digital e priorizando relacionamentos individuais — sem muita escala, mas com muita escuta, atenção e trabalho.
Eu sabia que era capaz e que, no fim, daria conta; mas também me questionava o tempo todo. Como mãe e como profissional. Parecia que era mais ou menos em tudo e que todos os processos precisavam melhorar. Mas sabia que eu precisava seguir caminhando e aprendendo a ter paciência. Nada fácil com o dia a dia que sempre me forçava a esperar o cartão virar.
As coisas andaram devagar, mas andaram. Pelo menos, dois anos depois de oficialmente começar a trabalhar como autônoma, as reservas pararam de diminuir. Elas ainda não começaram a crescer, de fato. Mas isso já é suficientemente bom, para agora. É uma vitória de uma mãe suficientemente boa, bastante exausta, e um pouco frustrada, também. Afinal, não pode muita coisa que antes podia. Uma mãe de uma bebê de 1 ano que faz muito por obrigação e pouco por desejo. Mas que conhece, muito mais claramente do que antes, as suas prioridades. Os boletos pedem trabalho, o bebê também. E com isso, sigo aprendendo que dá pra ganhar menos e ainda assim ganhar muito mais.
A comadre que te escreve hoje
Sou a Paola, a mãe da Felipa, uma bebê muito sonhada, e também de dois anjinhos que vieram antes dela. Enquanto lutava pela maternidade, eu ressignifiquei meus caminhos profissionais e fui de uma executiva de marketing e CMO com mais de 15 anos de mercado, para uma escritora e mentora que busca uma forma mais gentil de encarar a vida, a maternidade e o mercado de trabalho.
E é sobre tudo isso que escrevo na minha newsletter Somos Nós, por Paola Z.Behs - criações de uma vida entrelaçada de afetos, vulnerabilidades e inquietações, por uma mãe e ex-workaholic. :)
Acontecendo na Comadreria
Energizadas pela força do eclipse-portal, nos reunimos em uma clareira, na floresta, para falar de nossas vulnerabilidades, inaugurando a segunda coletânea da Comadreria. Serão onze semanas de trocas, acolhimento e transmutação, promovidas pelos textos de nossas convidadas que emprestaram a sua poesia para a nossa roda.
Para ler os últimos textos, clique aqui.
A terceira coletânea já está sendo gestada em nós. Desta vez, a Comadreria abrirá um edital, na esperança de descobrir e impulsionar novas vozes. Portanto, fique atenta: na semana que vem traremos mais detalhes sobre a temática escolhida e como participar.
Com amor,
Comadreria










Paola, adorei ler um pouco da sua história... me identifico. Quando meu primeiro filho nasceu, também larguei a segurança de um emprego para maternar. Sinto que esse é um dos grandes desafios que as mulheres enfrentam hoje, uma escolha que é sempre muito íntima e delicada. Será que eu ainda faria tudo igual hoje (me pergunto)? Mas sempre que leio uma história assim, acho tão bonita essa entrega desprendida de maiores ambições. Grata por compartilhar!
Paola, esse tema abre ainda mais abas na minha cabeça. Fico feliz quando vejo que uma mãe achou um caminho e tá fluindo. <3