Faço feitiço sem nem saber que lua é
E se a liberdade couber em uma gaveta?
Desligo o chuveiro, passo a mão bem rápido no corpo para remover um tanto das gotículas que ficaram na pele, aproveitando para ajeitar a coleção de bichinhos de borracha que testemunha a minha mandinga materna diária para afastar o cansaço. Coloco primeiro um pé para fora da banheira, cuidadosamente, que é para não escorregar, depois o outro e, sem prestar muita atenção, estico o braço na direção da toalha.
Quando a ponta dos dedos encontra o gelado do azulejo da parede e nada mais, o corpo inteiro se contrai inesperadamente. Eu não sei você, mas, se tem uma coisa que desanda meu bom humor, é não ter toalha para me secar.
Detesto, com todas as forças que sei conjurar, aqueles minutos de espera entre o grito — toaaaaaaaaaaalha! — e o movimento da porta se abrindo e alguém, hoje o marido, outrora a mãe, o pai, a irmã mais velha ou um dos irmãos, aparecendo com o acalento em mãos.
Dessa vez, no entanto, estou sozinha em casa.
Não adianta gritar.
Engulo o ódio da dona de casa meia-boca que colocou todas elas para tomar um sol na varanda e esqueceu de devolvê-las ao lugar habitual e, azeda, caminho até o quarto deixando um rastro molhado pelo chão de taco.
Abro a gaveta grande que fica no pé do armário embutido, pego a única toalha que encontro e volto para o banheiro já enrolada nela.
Desembaço o espelho com o fofo da mão. Ao me deparar com o semblante franzido que me envelhece uma década, abro um sorriso pouco econômico — agora que já estou quentinha, posso voltar a ser feliz.
Abaixo o olhar até ele cair sobre os ombros nus para, em seguida, repousa-lo sobre o viés da toalha branca. Vejo a etiqueta que diz Casa.
Lembro de quando a comprei, há mais de 13 anos. E do porquê de tê-la comprado.
Me vê a mais branca, a maior e mais cheia de fios. Quer saber o preço? Não, não importa.
Quantas vai levar? Só uma. Se levar duas, tem um desconto. Não quero desconto. Não quero duas. Não sou mais dois. Sou uma. Peça única. Avulsa. Acabo de me separar.
Quando chego em casa, abro a sacola e de lá tiro a toalha mais cheia de fios que já tive na vida. O símbolo felpudo da minha liberdade.
Abro a terceira gaveta da cômoda, mergulho os dois braços, que é para tirar a pilha inteira de trapos velhos, e os levo para o quintal do casebre alugado no meio do bosque. Taco fogo em tudo convocando a bruxa em mim.
Faço feitiço sem nem saber que lua é.
Alguns meses depois, ao colocar na mala o pouco que sobrou após ter vendido tudo para fazer a grana do intercâmbio, encontro espaço para a minha toalha branca de muitíssimos fios.
Mas ela é enorme, filha. Minha mãe alerta.
Não importa. Preciso dela para lembrar que, nessa de amar outro alguém, não podemos deixar de seguir nos amando muitíssimo mais.
Com um afeto radical,
Verbena
Bora escrever juntas, comadre?
Ao longo das próximas semanas, estaremos por aqui abrindo gavetas e colocando em palavras o inesperado que surge diante desse trivial e cotidiano gesto.
Nosso convite é que, assim como nós, você também abra uma gaveta qualquer, se permita ser encontrada por uma memória, história, divagação ou reflexão e escreva o que surgir.
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Algumas histórias precisam de um pouco mais de tempo para encontrar o papel. Por isso, o prazo para envio das cartas da terceira coletânea da Comadreria foi estendido até 21/07.
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Te aguardamos, comadre.
Com carinho,
Verbena, Mariana e Daniela






Identifiquei a necessidade urgente de ter uma toalha felpuda dessas! 🥹
Que delícia te ler! ❤️
E essa toalha branca e felpuda é, em si mesma, um feitiço de amor próprio e cultivo de individualidade que nem precisa de lua <3