Uma já conhecida ladainha
Crescendo com o meu pequeno sábio
Levanto cedo após uma noite quase não dormida. A pequena resfriou e o nariz congestionado não nos deixou cair no mais profundo do sono. Preparo o café e, em vez de servi-lo na xícara rosa favorita, encho a frasqueirinha térmica para ir aos poucos bebericando esse bálsamo que tantas de nós recorremos para reconectar as sinapses.
Enquanto a pequena come e faz sujeira, recolho os restos do café da manhã, coloco pratos sujos na máquina de lavar-louça e deixo a cozinha mais ou menos em ordem. Conversando com meus botões, preparo a mochila com o que pode nos servir no piquenique: coisinhas para lambiscar, babador, uma muda de roupa, dois ou três brinquedos coloridos e a toalha que acabará cheia de areia. Nesse meio tempo, o marido organiza o carro para o nosso pequeno respiro em família.
Seguimos pela estrada em busca da vitamina sol que tanto precisamos já que, não demora, o inverno irlandês chega antes da hora. Já de pés na areia, ele leva a pequena pela mão para brincar de encontrar as ondas que chegam — uma por uma — sem jamais falhar, eu enfim me estendo no chão quente, pés descalços, corpo ancorado. Fecho os olhos e, no fundo, o que me acompanha não é só o som do mar. É também a lembrança das palavras que atravessaram a janela do quarto na noite passada, vindas da casa de uma das comadres da nossa vila. São elas que repousam comigo agora, ao sol, dissipando, feito bálsamo, a exaustão que se acumula nos cantos do corpo — essa mesma exaustão que tantas de nós partilhamos, e reconhecemos de imediato, só de olhar uma para a outra.
Te convido a abrir sua janela, deixar as palavras da querida Mari te alcançarem também e, com algo de beber gostoso em mãos, desfrutar desse belo encontro entre comadres.
Com um afeto radical,
Verbena Cartaxo
Uma já conhecida ladainha
por Mari P. Bragança
Deixo o quarto. Desço as escadas, intencionando pegar uma xícara do chá preparado previamente à rotina noturna do menino — uma mistura recém inventada de capim-limão, passiflora e mulungo. Ignoro o fogão engordurado do jantar, as poltronas fora de lugar, os poucos brinquedos espalhados pela sala. Subo, novamente. Em meu escritório, acendo a luminária de mesa e uma pequena vela. Posto-me, de fronte à janela, e deixo fluir os sentires. Retorno à noite de sábado. Depois de um dia gostoso, em um restaurante meio campestre, voltamos para casa, ao anoitecer, com um garotinho adormecido no carro. Chegamos depois das 18h e decidimos colocá-lo diretamente na cama. Ele acorda, porém. Ressoa uma já conhecida ladainha:
“Posso ver um filminho? Depois eu desligo!”
Eu havia prometido, quando lá pelo milésimo pedido, consegui evitar. Resignada pela frustração da noite de descanso, que tentei não, mas projetei em minha mente, cedo. Ele se aninha no sofá e pede pela Patrulha Canina. O controle remoto quase já sabe o caminho. “Um filminho”, vira dois. Depois, três. A essa altura, Lu e eu nos juntamos a ele, no sofá e, quase cochilamos. Ao final do terceiro, ele choraminga um último. Suplica:
“Depois eu desligo!”
Estamos exaustos, os três. O pai combina:
“É o último. Segura o controle e, quando acabar, você desliga.”
Pedro concorda, sem prestar muita atenção; o que se reflete, tal qual a exaustão, após o término. Pedimos que ele desligue. Ele chora, insiste por mais. Somos firmes. Ele chora mais alto. Minha calma, já escassa, se torna inexistente. Inicio um discurso, daqueles tão desestimulados em momentos de crise — ao qual, me rendo, na falta de uma só gota de sangue de barata neste corpo cansado:
“Eu não estou nada feliz. Você não está cumprindo com o combinado.”
Em meio ao falatório, o que era pranto, vira atenção. Arrisco:
“Vem no colo da mamãe.”
Ele desliga a TV. Sua mãozinha umedecida pela baba, tendo recém saído da boca, em sua demonstração máxima de frustração. Vem em minha direção. Pede que eu limpe a saliva acumulada. Se aninha entre meus braços, enrosca os dedinhos no meu cabelo. Ao pé do meu ouvido, diz:
“Eu vou aprender.”
Me desfaço em mil pedaços. Abraço forte o meu pequeno sábio, confesso:
“Estamos aprendendo, filho. Nós três.”
No dia seguinte, parte da cena se repete. Ele chega da escola, pede por um filminho, senta na poltrona para assistir enquanto jantamos. Pede por um segundo, cedemos; para, então, pedir pelo terceiro — e recusar a negativa com choro. Acalmar a sua frustração, dessa vez, é mais fácil e rápido. Ele se distrai com a proposta de uma brincadeira incentivada pelo pai. Como o combinado, desliga a TV e vem ao meu encontro, em busca de ser saudado. Reforço a sua máxima do dia anterior:
— Você está crescendo, está aprendendo, certo?
— Sim, mamãe. Estou aprendendo e estou crescendo. Um dia, eu vou ser grande e igual a você.
Uma mistura de assombro, vaidade e medo se confundem. Sou tomada pelo peso maior da maternidade: ser modelo. Me questiono. Qual seria a versão que transparece de minhas ações e permanece nos olhos e referências de meu filho? Quais das minhas atitudes haverão de moldá-lo para a vida adulta?
À pouca luz do escritório, fragmentos do meu rosto transparecem no vidro da janela, que permite que eu me veja, por entre a noite clara. O rosto que, nos últimos anos, tão frequentemente associam ao de minha mãe. Para além dos traços, que quase não vejo, me pergunto: quanto dela haveria na mulher que me tornei?
Olho meu rosto no vidro, novamente. Através dele, outra vez, fito a noite clara. As poucas janelas ainda acesas. Quantas delas abrigariam mulheres, mães exaustas que, como eu, se consomem em seus devaneios noturnos, diante do desafio maior que há nessa vida? Tomo o último gole de chá, frio. Assopro a vela e apago a luz. Vou me deitar. Se há que se ser exemplo, que seja no todo — ou que faça orgulhar. Ainda que nem sempre. Também estou aprendendo e crescendo — e, essa noite, é a mim que digo isso.
A comadre que te escreve hoje
Mari P. Bragança, Mari, é mãe do Pedro, de três anos, e dona da Tasca dos Bragança, uma casa com nome próprio, refúgio de devaneios e obsessões, que abraçam da cozinha às estantes e transbordam nas paredes, entre fotos e memorabilia. Uma apaixonada pelas palavras, que por uma curva inusitada do destino (nunca soube diferenciar direita e esquerda), foi parar na engenharia — ainda que nelas, siga encontrando o seu refúgio e aconchego. Desde 2021, assina a newsletter tasqueando, no Substack, onde chama à mesa, prepara um café, serve algo que se coma, oferece um vinho — um preâmbulo para as partilhas de sua vivência como mulher e mãe.
Acontecendo na Comadreria
Se você acaba de chegar por aqui, saiba que a série de lançamento da Comadreria já teve outros três envios. Na semana passada, a querida Tainah Lobo compartilhou sua história e nos presenteou com esse texto belíssimo.
Roda de comadres
Domingo que vem, dia 31 de agosto, às 10h horário de Brasília, acontecerá o primeiro encontro da Comadreria. O sonho era reservar um jardim lindo, bem junto do oceano e permitir que o som do mar vibrasse dentro de cada uma de nós. Organizaríamos um buffet leve, colorido, feito à muitas mãos, enfeitaríamos uma mesa de madeira longa com velas e flores e viraríamos a noite conversando, tricotando planos e ideias, confidenciando dúvidas e segredos e criando, assim, a sensação de sermos comadres de longa data.
Conhecemos a força dos sonhos, entretanto, a realidade (ainda!) é outra. Contudo, criativas que somos, faremos o possível com o que temos hoje!
O núcleo de criação da Comadreria já está a postos, cheio de ideias sobre como conduzir essa prosa, porém para podermos planejar mais a fundo essa primeira roda de conversa, precisamos de uma rápida confirmação: quem já está com o encontro marcado na agenda e conseguirá estar presente?
Para facilitar, confirme sua presença nesse formulário aqui! Lembrando que o encontro é gratuito e acontecerá pelo Zoom.
Novidade sobre o Atlas
O Atlas das Mães que Escrevem no Substack foi atualizado e novas comadres entraram para o mapa. Se você ainda não faz parte dessa cartografia viva da escrita materna no Substack te convidamos a preencher esse formulário e se colocar no Atlas.







